Retorno do Investimento em Energia Solar Fotovoltaica: Principais variáveis que devemos analisar.

Energia solar é melhor que investir no mercado financeiro? Vale apena tomar um empréstimo e ir para Solar?

Um amigo entusiasmado me questionou o seguinte: “em que devo investir agora para me preparar para uma crise financeira?”

A situação tomou contornos interessantes. Na verdade o que o meu amigo estava querendo saber se seria melhor manter os recursos dele investidos em uma aplicação financeira/ações, ou investir em um sistema solar fotovoltaico para compensar os gastos de sua família com energia elétrica.

Embora eu não seja especialista em investimentos, não consigo pensar em um único investimento que combine os altos retornos esperados e o baixíssimo risco de um sistema solar doméstico ou comercial.

Diante do exposto até agora, cabe nesse momento avaliar os riscos de o investidor toma ao decidir investir na geração da própria energia de maneira limpa e sustentável.

Por isso, resolvi mostrar com um exemplo real, as principais variáveis que uma pessoa que deseja investir em um sistema solar deve conhecer e entender para tomar a decisão com segurança e tranquilidade. E isso, independentemente de possuir os recursos necessários ou se pretende obter um empréstimo para realizá-lo.

Critérios de investimento

Ao considerar qualquer investimento, a maioria dos investidores profissionais se concentra nesses critérios:

 1. Retorno esperado do seu investimento.

 2. Risco, divido em dois componentes:

     a) A probabilidade de as coisas darem errado

     b) As perdas esperadas se as coisas derem errado

 3. Liquidez / fluxo de caixa: como será retorno do seu investimento?

O investimento em energia solar tem um aspecto moral muito relevante, uma vez que se comparada a outras formas de geração de energia, ela é a que menos agride o meio ambiente se for observado todo ciclo de vida produtivo, que vai desde o processo de fabricação até o descarte dos equipamentos ao final da vida útil. No entanto não será esse o nosso foco aqui, pois iremos focar apenas no aspecto financeiro.

Exemplo de uma instalação solar residencial

A economia gerada por um sistema solar residencial depende de vários fatores, como por exemplo, o clima da região, o investimento na instalação, os aumentos na tarifa de energia, o tipo de telhado onde será instalado, eventuais sombreamentos e políticas governamentais de incentivo. Apesar de todos estes fatores, mostraremos aqui, que é sempre mais vantajoso instalar um sistema para compensar seu gastos com energia elétrica, que pagar integralmente para sempre, sem contar os benefícios ao meio ambiente que cada vez mais tem ampliado a importância a nível global.

Utilizarei como exemplo uma instalação residencial típica, na cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco, situado na região Nordeste do Brasil. O cenário é um sistema instalado em uma casa com telhado de telhas cerâmicas, com leve inclinação orientado ao norte.

A potência instalada é de 8,03 KWp utilizando 22 módulos solares e 50 metros quadrados de telhado, com um investimento médio calculado em R$4,10 por Watt (R$32.923,00). 

Vale destacar que o valor do investimento é uma estimativa com base nos valores médios de mercado apresentados no relatório Greener/2020, e que cada instalação tem particularidades que influenciam no valor final, como estrutura do telhado, complexidade de instalação, além da qualidade e garantias dos equipamentos.

Já considerando as perdas, esse sistema produzirá 11.480 KWh/ano (Quilowatts-hora por ano), o que significa uma produção de 1.429,63 KWh ao ano por quilowatt instalado.

Para calcularmos as variáveis financeiras, precisaremos estimar o custo da tarifa de energia para os próximos anos, então para definir esse valor, verifiquei no site da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) o percentual de aumento dos últimos 5 anos, e estimei a média a partir deste valor. O gráfico abaixo (figura 1) mostra claramente os percentuais de aumento autorizados pela ANEEL nos últimos 9 anos, onde se verifica uma média de correção positiva de 7% aproximadamente ao ano.

Histórico do aumento tarifário no período de 2011 a 2019. Fonte: ANEEL (https://www.aneel.gov.br)

Neste gráfico, podemos observar que ao longo dos 9 (nove) anos analisados, apenas em 2013 notamos uma queda, devido a uma intervenção governamental que no ano seguinte provocou um maior alta desta série histórica;

Calculando as principais variáveis relacionadas ao investimento em um sistema solar.

Iremos abordar aqui as seguintes variáveis:

1 – Vamos começar pelo PAYBACK

Apesar de todos os benefícios da energia solar fotovoltaica, muitas pessoas ainda pensam que o custo benefício de se investir em um sistema fotovoltaico não compensa.  

Então acompanhe os cálculos, e tire as suas próprias conclusões.  

O tempo de retorno do investimento em energia solar ou ‘payback’ representa o tempo necessário para que o custo de instalação se pague e, a partir de então, comece a dar lucro para o proprietário. Basicamente, para fazer este cálculo é necessário fazer o levantamento do custo total do investimento e dividi-lo pela economia proporcionada mensalmente. 

PAYBACK (meses) = Investimento (R$) / Energia gerada (kWh/mes) x Valor da tarifa  

Logo,   

         PAYBACK(meses) = 32.923,00 R$ / 957 KWh/mês x 0,81 R$/KWh = 42,4 meses  

O cálculo do payback de um sistema de energia solar fotovoltaico deve, portanto, levar em consideração o investimento total realizado e a geração média mensal do sistema fotovoltaico (produção de energia em kWh). No Brasil, o payback varia bastante em função da radiação solar e tarifas cobradas e, quanto maiores estes valores, menor será o payback do sistema.

2 – O ROI (Return of Investiment) ou Retorno do Investimento

Outra variável importante de se verificar é a taxa de retorno sobre o investimento. Para calcular qual a taxa de retorno, que geralmente é anual ao se investir em um sistema de energia fotovoltaica, basta verificar qual é a proporção entre a economia obtida anualmente através do sistema e o investimento realizado. Este parâmetro pode lhe auxiliar a decidir entre investir no seu sistema próprio de geração de energia, ou manter o dinheiro em outra aplicação.   

Para o nosso exemplo o resultado é o seguinte:  

Rentabilidade = Economia (R$8.952,83) / Investimento (R$32.923,00) = 27,19%  

 Sendo ainda mais rigoroso, podemos descontar do percentual de rentabilidade o percentual da inflação estimada para o ano de 2020, que segundo o relatório focus do Banco Central é de 3,5% (figura 2). O que traz o resultado final de:  

Rentabilidade = 27,19% – 3,56% = 23,63%

Figura 2: Relatório focus do Banco Central sobre a previsão de inflação para o ano de 2020.

E o que significa uma rentabilidade de 23,63%% do investimento feito no sistema solar? Significa que o valor investido no seu sistema solar está rendendo 23,63% ao ano, e essa rentabilidade está sendo revertida em economia nos gastos com energia elétrica.

Vamos falar mais adiante sobre os riscos de investimento, mas é importante frisar aqui que a rentabilidade do sistema solar fotovoltaico está bem acima da maioria dos investimentos disponíveis no mercado, com o agravante de que no mercado financeiro não existe alta rentabilidade sem alto risco. Além disso, o investimento no seu sistema solar não requer nenhum conhecimento técnico específico em mercado financeiro, ou ainda o acompanhamento constante da performance do investimento, uma vez que a fonte que gera sua economia é o Sol.

Veja um comparativo (figura 3) com outros investimentos convencionais, e perceba como um sistema fotovoltaico, além de gerar uma energia limpa e renovável, pode ser ainda mais rentável economicamente, com baixíssimo risco, e sem requerer profundos conhecimentos técnicos de mercado financeiro.

Figura 3 – Quadro comparativo com alguns principais investimentos no mercado financeiro, com destaque para aqueles que apresentam menor risco, e podem ser comparados ao investimento em energia solar..

3 – VPL (Valor presente líquido)

O Valor Presente Líquido (VPL) é uma cálculo realizado pelo investidor para que ele possa avaliar se o investimento é ou não viável. O VPL é utilizado em conjunto com outras variáveis, mas sozinho já é uma ferramenta muito útil para nortear o investidor.  

O VPL é um grandeza que pode ser positiva, igual a zero ou negativa. No primeiro caso, o significado é que o investimento é viável, no segundo caso, indiferente; e no terceiro caso, significa que o investimento é inviável.

 O cálculo do VPL é feito atualizando todo o fluxo de caixa de um investimento para o valor de hoje, utilizando uma taxa de desconto no cálculo conhecida como Taxa Mínima de Atratividade (TMA).

A fórmula para o cálculo da VPL é a seguinte: 

Formula do valor presente

FC = Fluxo de caixa
TMA = Taxa mínima de atratividade
j = período de cada fluxo de caixa
 

Nesta fórmula temos um somatório de todos os valores do fluxo de caixa que geram entrada de dinheiro ao investidor, subtraído do investimento inicial. 

Aplicando ao nosso exemplo:

Figura 4 – Cálculo do VPL (valor presente líquido considerando a TMA variável e degradação no rendimento por desgaste natural do sistema solar fotovoltaico.

Para ser conservador, escolhi a taxa mínima de atratividade no valor de 6%, ou seja, para que o projeto seja viável, a Taxa Interna de Retorno (TIR) deve superar a Taxa Mínima de Atratividade, o que significará que o investimento no projeto é mais vantajoso que manter o dinheiro aplicado em qualquer aplicação cuja remuneração possua taxa inferior a TIR calculada no projeto.

Em outras palavras, podemos pensar na TMA como sendo a taxa o seu capital (a ser investido) renderia em outra aplicação com risco equivalente. Considerando que a projeção para taxa SELIC é de 4,25% no momento em que escrevo este artigo, uma TMA de 6% está bem interessante. 

Mas o que significa afinal o VPL encontrado na análise da tabela da figura 4?

Significa que se o investimento de R$32.023,00 fosse feito no projeto, e se descapitalizarmos os resultados anuais do investimento (fluxos de caixa) ao longos dos próximos 25 anos até a data de hoje, os R$32.923,00 valeriam na verdade o valor R$269.078,85 ( o VPL – valor presente líquido – calculado).

Portanto, quanto maior for o VPL do seu projeto, maior serão os ganhos se decidir investir nele!

4 – Taxa Interna de Retorno (TIR) e Taxa Mínima de Atratividade (TMA)

taxa mínima de atratividade (TMA) é a taxa mínima que um a pessoa que deseja investir aceita para seu novo projeto. Normalmente esta taxa representa o mínimo que o investimento de dar como retorno para que seja aceito como viável.

Taxa Interna de Retorno (TIR) de um projeto, é uma variável – expressa em percentagem – que mostra o quanto rende um investimento, se for considerado o mesmo período dos fluxos de caixa do projeto.

Ou seja, no caso de projetos de energia solar, vamos considerar o período de fluxo de caixa medido em anos, e num total de 25, que é a expectativa de vida útil mínima, embora os sistema normalmente operem até 30 anos.

A TIR representa o valor de desconto no seu fluxo de caixa que faz com que seu VPL (Valor presente líquido) seja igual a zero.

Isso significa que se você calcular o fluxo de caixa para um VPL igual a zero, irá encontrar uma valor percentual para a taxa “i” de desconto. Se esta taxa for maior que a TMA, então seu projeto é viável, caso contrário, não é.

5 – Divisão dos riscos em sistemas solares

Agora, vamos fazer uma breve análise dos riscos envolvidos num investimento em um projeto de energia solar fotovoltaica.

Podemos dividir os riscos da seguinte forma:

– Queda dos preços da tarifa de energia elétrica

– Reparos

– Desastres naturais

Queda dos preços da tarifa de energia elétrica e uma possibilidade que existe, e seu impacto no retorno do projeto é melhor percebido no aumento no Payback, que aumenta na medida em que a tarifa de energia ficar mais barata.

No entanto, vamos analisar se o cenário é favorável para a redução da tarifa de energia.

No Brasil, nos últimos 10 anos a tarifa de energia, em média, apresentou crescimento

Figura 5 – Histórico de crescimento da tarifa de energia elétrica em R$/MWh – período de 2010 a 2020.

Com relação aos Reparos ou manutenção do sistema solar fotovoltaico, é fundamental lembrar que estes sistemas são construídos para suportar as intempéries da natureza, e a garantia dos fabricantes é relativamente extensa, variando de 6 a 12 anos para inversores, e 10 a 12 anos para os painéis, no entanto praticamente todos os fabricantes garantes uma performance mínima de 80% da capacidade das placas até 25 anos de uso.

Sobre a manutenção, a recomendação é seja feita ao menos uma inspeção anual, onde devem ser verificados os componentes do sistema, que seriam: os painéis ou módulos solares, o cabeamento, a estrutura de fixação, os elementos de proteção e o(s) inversor(es), além de realizar uma limpeza nos painéis a fim de eliminar possíveis obstáculos à captação da luz solar.

A limpeza dos painéis é simples, e consiste basicamente da lavagem das placas com água corrente e esponja macia.

Estima-se que o custo de O&M (operação e manutenção) de um sistema solar seja de 0,5% ao ano, do valor total do projeto.

Outro risco que pode ser considerado é o da ocorrência de desastres naturais, que pode ser mitigado mediante a adesão a um seguro domiciliar, porém, esta avaliação é muito relativa, e depende de cada investidor, e também de quanto o imóvel representa de seu patrimônio líquido.

6 – Conclusão

Os números são muito favoráveis aos projetos de energia solar. É claro que existem muitas outras variáveis que o investidor pode avaliar para tomar sua decisão, inclusive aquelas relacionadas ao compromisso moral, ambiental, de branding ou engajamento social.

O fato inegável, e sustentado por diversos órgãos internacionais, como a Agência Internacional de Energia, é que a energia solar assumirá em pouco tempo a liderança na matriz energética mundial, atingindo um crescimento anual superior a 200 Gigawatts a partir de 2025, segundo relata a agência.

Do ponto de vista econômico e financeiro o investimento em energia solar é bastante vantajoso, com taxas de retorno que superam a maiorias das aplicações financeiras disponíveis no mercado, porém com um grau de risco muito menor.

Do ponto de vista ambiental, os benefícios da Energia Solar são incontestáveis, sobretudo se comparados às outras formas de geração de energia, como a partir de combustíveis fósseis, nuclear ou hidroelétrica. 

A energia solar é a mais limpa dentre as fontes alternativas de energia, e a que irá crescer mais ao longo dos próximos 20 anos, tornando-se a principal fonte da matriz energética mundial.